quinta-feira, 3 de junho de 2010

O Inferno à luz da Doutrina Espírita

A idéia mais comum de inferno como um determinado local, no interior da Terra, onde as almas são condenadas a viver, eternamente, em verdadeiro suplício como conseqüência dos erros cometidos, não é aceita pelo Espiritismo. De acordo com a Doutrina Espírita, o inferno é estado íntimo de espírito, ainda sintonizado com o mal, seja desencarnado ou encarnado. Mas é uma situação temporária, da qual se liberta com o progresso moral, conquistado através das encarnações. Não é uma situação permanente, irreversível.
        Pode-se argumentar que o próprio Cristo ameaçou os homens maus com o fogo eterno. Sem dúvida, se pesquisarmos nas traduções tradicionais dos textos evangélicos, encontraremos a referência de Jesus ao fogo eterno. Mas, se aprofundarmos um pouco mais no estudo, veremos que o pensamento de Jesus não é draconiano. Carlos Torres Pastorino, que era professor de grego na Universidade de Brasília, em seus estudos evangélicos, esclarece-nos que a palavra grega que adjetiva o substantivo fogo não foi adequadamente traduzida, porquanto a melhor tradução não é "eterno", mas sim "imanente". A mudança de sentido é muito grande. Imanente se refere ao estado íntimo da criatura e não tem o caráter de irreversibilidade que tem o adjetivo eterno.
        Com esta tradução, o pensamento de Jesus fica mais coerente com a sua personalidade, que exterioriza profundo amor e misericórdia.
        Como afirmamos acima, o inferno íntimo pode ser um estado do espírito encarnado, mas é pior após a desencarnação, porque o corpo material como que amortece a dor da consciência. No Mundo Espiritual, o espírito compreende melhor as leis de Deus e percebe, com mais nitidez, a gravidade dos erros cometidos, motivo por que sofre mais.
        Um outro aspecto que precisa ser ressaltado é que os espíritos endurecidos, vinculados ao mal, permanecem, por tempo mais ou menos longo, em regiões inferiores do Plano Espiritual, denominadas por André Luiz de umbral. Neste estado, o espírito sofre muito. Embora o umbral corresponda, em vários aspectos, ao inferno descrito classicamente, a permanência do espírito nessa situação é temporária e depende dele mesmo, que sairá, tanto mais rapidamente, quanto mais cedo mudar a sua situação íntima, manifestando o desejo de melhorar. Os "demônios" que se encontram naquelas regiões são espíritos de pessoas de índole má, que se recusam a melhorar-se.
        Os espíritos bons e os que não são endurecidos, após a desencarnação, habitam em colônias espirituais, onde a vida é melhor do que a da Terra. Os espíritos que se melhoram no umbral também são recolhidos a colônias, naturalmente menos evoluídas, mas onde o bem domina completamente.
        Compete, pois, à própria pessoa edificar, ou se libertar do inferno interior.

 

Fonte: Revista "Reformador"

Mãos Enferrujadas

Quando Joaquim Sucupira abandonou o corpo, depois dos sessenta anos, deixou-nos conhecidos a impressão de que subiria incontinenti aos Céus. Vivera arredado do mundo, no conforto precioso que herdara dos pais. Falava pouco, andava menos, agia nunca.
        Era visto invariavelmente em trajes impecáveis. A gravata ostentava sempre uma pérola de alto preço, pequena orquídea assinalava a lapela e o lenço, admiravelmente dobrado, caía, irrepreensível, do bolso mirim. O rosto denunciava-lhe o apurado culto às madeiras distintas. Buscava, no barbeiro cuidadoso cada manhã, renovada expressão juvenil. Os cabelos bem postos, embora escassos, cobriam-lhe o crânio com o esmero possível.
        Dizia-se cristão e, realmente, se vivia isolado, não fazia mal sequer a uma formiga. Assegurava, porém, o pavor que o possuía, ante os religiosos de todos os matizes. Detestava os padrões católicos, criticava as organizações protestantes e categorizava os espiritistas no rol dos loucos. Aceitava Jesus a seu modo, não segundo o próprio Jesus.
        As facilidades econômicas transitórias adiavam-lhe as lições benfeitoras do concurso fraterno, no campo da vida.
        Estudava, estudava, estudava...
        E cada vez mais se convencia de que as melhores diretrizes eram as dele mesmo. Afastamento individual para evitar complicações e desgostos. Admitia, sem rebuços, que assim efetuaria preparação adequada para a existência depois do sepulcro. Em vista disso, a desencarnação de homem tão cauteloso em preservar-se, passaria por viagem sem escalas com o destino à Corte Celeste.
        Dava aos familiares dinheiro suficiente para aventuras e fantasias, a fim de não ser incomodado por eles; distribuía esmolas vultuosas, para que os problemas de caridade não lhe visitassem o lar; afastava-se do mundo para não pecar. Não seria Joaquim - perguntavam amigos íntimos - o tipo religioso perfeito? Distante de todas as complicações da experiência humana, pela força da fortuna sólida que herdara dos parentes, seria impossível que não conquistasse o paraíso.
        Contudo, a responsabilidade que o defrontava agora não correspondia à expectativa geral.
        Sucupira, desencarnado, ingressava numa esfera de ação, dentro da qual parecia não ser percebido pelos grandes servidores celestiais. Via-os em movimentação brilhante, nos campos e nas cidades. Segredavam ordens divinas aos ouvidos de todas as pessoas em serviços dignos. Chegara a ver um anjo singularmente abraçado à velha cozinheira analfabeta.
        Em se aproximando, todavia, dos Mensageiros do Céu, não era por eles atendido.
        Conseguia andar, ver, ouvir, pensar. No entanto - desventurado Joaquim! - as mãos e os braços mantinham-se inertes. Semelhavam-se a antenas de mármore, irremediavelmente ligadas ao corpo espiritual. Se intentava matar a sede ou a fome, obrigava-se a cair de bruços porque não dispunha de mãos amigas que o ajudassem.
        Muito tempo suportara semelhante infortúnio, multiplicando apelos e lágrimas, quando foi conduzido por entidade caridosa a pequeno tribunal de socorro, que funcionava de tempos em tempos, nas regiões inferiores onde vivia compungido.
        O benfeitor que desempenhava ali funções de juiz, reunida a assembléia de Espíritos penitentes, declarou não contar com muito tempo, em face das obrigações que o prendiam nos círculos mais altos e que viera até ali somente para liquidar casos mais dolorosos e urgentes.
        Devotados companheiros do bem selecionavam a meia dúzia de sofredores que poderiam ser ouvidos, dentre os quais, por último, figurou Sucupira, a exibir os braços petrificados.
        Chorou, rogou, lamuriou-se. Quando pareceu disposto a fazer o relatório geral e circunstanciado da existência finda, o julgador obtemperou:
        - Não, meu amigo, não trate de sua biografia. O tempo é curto. Vamos ao que interessa.
        Examinou-o detidamente e observou, passados alguns instantes:
        - Sua maravilhosa acuidade mental demonstra que estudou muitíssimo.
        Fez pequeno intervalo e entrou a argüir:
        - Joaquim, você era casado?
  - Sim.
        - Zelava a residência?
        - Minha mulher cuida de tudo.
        - Foi pai?
       - Sim.
        - Cuidava dos filhos em pequeninos?
     - Tínhamos suficiente número de criadas e amas.
        - E quando jovens?
     - Eram naturalmente entregues aos professores.
        - Exerceu alguma profissão útil?
    - Não tinha necessidade de trabalhar para ganhar o pão.
        - Nunca sofreu dor de cabeça pelos amigos?
      - Sempre fugi, receoso, das amizades. Não queria prejudicar, nem ser prejudicado.
        O julgador interrompeu-se, refletiu longamente e prosseguiu:
        - Você adotou alguma religião?
      - Sim, eu era cristão - esclareceu Sucupira.
        - Ajudava os católicos?
  - Não. Detestava os sacerdotes.
        - Cooperava com as Igrejas reformadas?
  - De modo algum. São excessivamente intolerantes.
        - Acompanhava os espíritas?
       - Não. Temia-lhes presença.
        - Amparou doentes, em nome de Cristo?
       - A terra tem numerosos enfermeiros.
        - Auxiliou criancinhas abandonadas?
       - Há creches por toda parte.
        - Escreveu alguma página consoladora?
        - Para quê? O mundo está cheio de livros e escritores.
        - Utilizava o martelo ou o pincel?
        - Absolutamente.
        - Socorreu animais desprotegidos?
        - Não.
        - Agradava-lhe cultivar a terra?
        - Nunca.
        - Plantou árvores benfeitoras?
        - Também não.
        - Dedicou-se ao serviço de condução das águas, protegendo paisagens empobrecidas?
        Sucupira fez um gesto de desdém e informou:
        - Jamais pensei nisto.
        O instrutor indagou-lhe sobre todas as atividades dignas conhecidas no Planeta. Ao fim do interrogatório, opinou sem delongas:
        - Seu caso explica-se: você tem as mãos enferrujadas.
        Ante à careta do interlocutor amargurado, esclareceu:
        - É o talento não usado, meu amigo. Seu remédio é regressar à lição. Repita o curso terrestre.
        Joaquim, confundido, desejava mais amplas elucidações.
        O juiz, porém, sem tempo de ouvi-lo, entregou-o aos cuidados de outro companheiro.
        Rogério, carioca desencarnado, tipo 1945, recebeu-o de semblante amável e feliz, após escutar-lhe compridas lamentações, convidou, pacientemente:
        - Vamos, Sucupira. Você entrará na fila em breves dias.
        - Fila? - interrogou o infeliz, boquiaberto.
        - Sim - acrescentou o alegre ajudante -, na fila da reencarnação.
        E, puxando o paralítico pelos ombros, concluía, sorrindo:
        - O que você precisa, Joaquim é de movimentação...

 

Texto extraído da Apostila de Estudo Sistematizado
da Doutrina Espírita - ESDE - FEB

Aviso

Está sendo procurado.
         Homem considerado galileu.
         Trinta e três anos.
         Pele clara e expressão triste.
         Cabelos longos e barba maltratada.
         Marcas sanguinolentas nas mãos e nos pés.
         Caminha habitualmente acompanhado de mendigos e vagabundos, doentes e mutilados, cegos e infelizes.
         Onde aparece, frequentemente, é visto, entre grande séquito de mulheres, sendo algumas de má vida, com crianças esfarrapadas.
         Quase sempre está seguido por doze pescadores e marginais.
         Demonstra respeito para com autoridades, determinando se dê a Cesar o que é de Cesar, mas espalha ensinamentos que é contrário à Lei antiga, como sejam:
                           -  o perdão das ofensas;
                           -  o amor aos inimigos;
                           -  a oração em favor daqueles que nos perseguem ou caluniam;
                           -  a distribuição indiscriminada de dádivas com os necessitados;
                           -  o amparo aos enfermos, sejam eles quais forem;
                           -  e chega ao cúmulo de recomendar que uma pessoa espancada numa face ofereça a outra ao agressor.
         Ainda não se sabe se é um mágico, mas testemunhas idôneas afirmam que ele multiplicou cinco pães e dois peixes em alimentação para mais de cinco mil pessoas, tendo sobrado doze cestos.
         Considerado impostor por haver trazido pessoas mortas à vida, foi preso e espancado.
         Setenciado à morte, com absoluta aprovação do próprio povo, que o condenou, de preferência à Barrabás, malfeitor conhecido, recebeu insultos e pedradas, sem reclamar, quando conduzia a cruz às costas. Não se ofendeu, quando questionado pela Justiça, complicando-se-lhe a situação, porque seus próprios seguidores o abandonaram nas horas difíceis. Sob afrontas e zombarias, foi crucificado entre dois ladrões.
         Não teve parentes que lhe demonstrassem solidariedade, a não ser sua Mãe, uma frágil mulher que chorava aos pés da cruz.
         Depois de morto, não se encontrou lugar para sepultá-lo, senão doloroso recanto de túmulo por favor de um amigo.
         Após o terceiro dia do sepultamento, desapareceu do sepulcro e já foi visto por diversas pessoas que o identificaram  pelas chagas sangrentas dos pés e das mãos.
         Esse homem que está sendo cuidadosamante procurado.
         Seu nome é Jesus de Nazaré.
         Se puderes encontrá-lo, deves segui-lo para sempre.

 

Maria Dolores

psicografado por Francisco C. Xavier - Grupo Espírita "Os Mensageiros"

O Grande Servidor

"Sim, estou entre vós como quem serve."
Jesus (Lucas 22:27)

 

         Sim, o Cristo não passou entre os homens como quem impõe.
         Nem como quem determina.
         Nem como quem governa.
         Nem como quem manda.
         Caminhou na Terra à feição de servidor.
         Legou-nos o Evangelho da Vida, escrevendo-lhe a epopéia no coração das criaturas.
         Mestre, tomou o próprio coração para sua cátedra.
         Enviado Celestial, não se detém num trono terrestre e aproxima-se da multidão para auxiliá-la.
         Fundador da Boa Nova, não se limita a tecer-lhe a coroa com palavras estudadas, mas estende-a  e consolida-lhe os valores com as próprias mãos.
         A prática é seu modo de convencer.
         O próprio sacrifício é o seu método de transformar.
         Aprendamos com o Divino Mestre a ciência da renovação pelo bem, elevando pessoas e melhorando situações, é servir sempre como quem sabe e fazer é o melhor processo de aconselhar.

Emmanuel
psicografado por Francisco C. Xavier - Grupo Espírita "Os Mensageiros"

O Passe

"Ele tomou sobre si as nossas enfermidades e
levou as nossas doenças" - Mateus, 8:17

 

          Meu amigo, o passe é transmissão de energias fisio-psíquicas, operação de boa vontade, dentro da qual o companheiro do bem cede de si mesmo em teu benefício.
          Se a moléstia, tristeza e amargura são remanescentes de nossas imperfeições, enganos e excessos, importa considerar que, no serviço do passe, as tuas melhoras resultam da troca de elementos vivos e atuantes.
          Trazes detritos e aflições e alguém te confere recursos novos e bálsamos reconfortantes.
          No clima da prova e da angústia, és portador da necessidade e do sofrimento.
          Na esfera da prece e do amor, um amigo se converte no instrumento da Infinita Bondade, para que recebas remédio e assistência.
          Ajuda o trabalho de socorro a ti mesmo com o esforço da limpeza interna.
          Esquece os males que te apoquentam, desculpa as ofensas de criaturas que não te compreendem, foge ao desânimo destrutivo e enche-te de simpatia e entendimento para com todos que te cercam.
          O mal é sempre a ignorância e a ignorância reclama perdão e auxílio para que se desfaça, em favor da nossa própria tranquilidade.
          Se pretendes, pois, guardar  as vantagens do passe que, em substância, é ato sublime de fraternidade cristã, purifica o sentimento e o raciocínio, o coração e o cérebro.
          Ninguém deita alimento indispensável em vaso impuro.
          Não abuse, sobretudo, daqueles que te auxiliam.
          Não tomes o lugar do verdadeiro necessitado, tão só porque os teus caprichos e melindres pessoais estejam feridos.
          O passe exprime também o gasto de forças e não deves provocar o dispêndio de energias do Alto, com infantilidades e ninharias.
          Se necessitas de semelhante intervenção, recolhe-te à boa vontade, centraliza a tua expectativa nas fontes celestes do suprimento divino, humilha-te, conservando a receptividade edificante, inflama o teu coração na confiança positiva e, recordando que alguém vai arcar com o peso de tuas aflições, retifica o teu caminho, considerando igualmente o sacrifício incessante de Jesus por nós todos, porque, de conformidade com as letras sagradas "Ele tomou sobre si as nossas enfermidades e levou as nossas doenças"

Emmanuel - Psicografado por Chico Xavier
Folheto de Distribuição da FEESP